
Leste Europeu: Romênia e Bulgária além do óbvio
O Leste Europeu vem ganhando espaço entre viajantes que buscam mais do que cartões-postais conhecidos. Em vez de filas, multidões e roteiros previsíveis, a região oferece cidades com ritmo próprio, paisagens preservadas e uma relação mais direta com a história e com as pessoas. É um tipo de viagem que valoriza o percurso tanto quanto os destinos.
Dentro desse contexto, Romênia e Bulgária se destacam como uma dupla pouco explorada. São países que carregam marcas profundas de diferentes impérios, tradições que atravessaram séculos e uma identidade cultural que mistura influências latinas, eslavas e orientais. Tudo isso aparece na arquitetura, na comida, na música e na forma como a vida cotidiana acontece.
Viajar por essa parte da Europa é aceitar o convite do inesperado. Vilas medievais convivem com capitais vibrantes, montanhas cercam cidades históricas e antigas rotas comerciais ajudam a entender o presente. Para quem procura turismo cultural no Leste Europeu, Romênia e Bulgária oferecem uma experiência rica, acessível e surpreendentemente atual.
O novo Leste Europeu: tendências e redescoberta
Por muito tempo, o Leste Europeu foi associado a estigmas que já não se sustentam. Nas últimas duas décadas, Romênia e Bulgária passaram por transformações profundas em infraestrutura, mobilidade urbana, preservação histórica e integração com o restante da Europa. O resultado é uma região mais acessível, organizada e preparada para receber viajantes interessados em cultura, história e experiências autênticas.
Dados da European Travel Commission indicam um crescimento consistente do interesse por destinos do Leste Europeu, especialmente entre viajantes que buscam alternativas às rotas saturadas da Europa Ocidental. O movimento está ligado não apenas ao custo mais equilibrado, mas à valorização de experiências locais, gastronomia regional e cidades médias com identidade preservada.
A questão da segurança, frequentemente levantada por quem ainda olha a região com desconfiança, também é respaldada por números. O Global Peace Index, que avalia indicadores como criminalidade violenta, estabilidade social e segurança para visitantes, posiciona Romênia e Bulgária entre os países considerados seguros para o turismo internacional. Em vários indicadores, os dois países apresentam índices semelhantes ou até melhores do que destinos tradicionais da Europa e da América do Norte.
Outro fator decisivo é o custo-benefício. Alimentação, hospedagem, transporte interno e experiências culturais têm valores mais acessíveis quando comparados a países como França, Itália ou Alemanha, sem que isso signifique perda de qualidade. Para o viajante brasileiro, isso permite um roteiro mais amplo, com mais tempo em cada cidade e menos pressa para “dar conta de tudo”.
Essa redescoberta do Leste Europeu não acontece por acaso. Ela reflete uma mudança no perfil de quem viaja: menos consumo de listas prontas e mais interesse em compreender o lugar, suas contradições e sua história viva. Romênia e Bulgária entram nesse cenário não como promessas exóticas, mas como destinos que finalmente estão sendo vistos com o olhar que merecem.

Romênia: latinidade e lendas nos Cárpatos
A Romênia ocupa um lugar singular no mapa do Leste Europeu. Cercada por países de matriz eslava, preserva uma identidade fortemente ligada ao latim, perceptível no idioma, nos costumes e na organização das cidades. Segundo a Organização Mundial do Turismo da Romênia, essa herança convive com séculos de influências austro-húngaras, otomanas e do período comunista, formando um território marcado por contrastes históricos e culturais.
Grande parte do território romeno é coberta por áreas naturais, incluindo os Cárpatos, uma das cadeias montanhosas mais preservadas da Europa. A região concentra vilas históricas, cidades medievais e áreas protegidas que ajudam a entender o peso da paisagem na formação cultural do país.
A verdade sobre a Transilvânia
A Transilvânia está longe da imagem sombria popularizada pela literatura e pelo cinema. Na prática, é uma região de colinas verdes, cidades muradas e vilas medievais que preservam uma forte herança saxônica, especialmente no desenho urbano e nas igrejas fortificadas.
Cidades como Sighișoara, uma das poucas cidadelas medievais ainda habitadas da Europa, mantêm centros históricos preservados, com ruas de pedra e torres de defesa. Já Brașov, aos pés dos Cárpatos, combina arquitetura medieval com vida urbana contemporânea e acesso facilitado a trilhas e fortalezas da região.
Os mosteiros pintados da Bucovina
No norte do país, a região da Bucovina abriga um conjunto singular de mosteiros ortodoxos decorados externamente com afrescos narrativos. As pinturas, voltadas para o exterior das igrejas, foram concebidas na Idade Média como instrumento de ensino religioso visual.
O Mosteiro de Voroneț é o mais emblemático do conjunto, conhecido pelo tom intenso do chamado “azul de Voroneț”, cuja composição permanece objeto de estudo até hoje. Esses mosteiros seguem ativos e integrados à vida religiosa e cultural local.
Bucareste entre elegância e memória política
No início do século XX, Bucareste ganhou o apelido de “Pequena Paris”, reflexo de suas avenidas largas, edifícios art nouveau e forte influência cultural francesa. Essa camada histórica ainda pode ser percebida em bairros centrais e edifícios preservados.
Ao mesmo tempo, a capital romena carrega marcas profundas do período comunista, simbolizadas pelo Palácio do Parlamento, um dos maiores edifícios administrativos do mundo. Hoje, Bucareste vive um processo contínuo de revitalização cultural, com museus, espaços criativos e uma cena gastronômica em expansão.
Bulgária: onde o Oriente encontra o Ocidente
A Bulgária é um dos países mais antigos da Europa e carrega uma identidade moldada por sucessivas camadas históricas. Localizada em um ponto estratégico entre a Europa e a Ásia, foi atravessada por trácios, romanos, bizantinos e otomanos. Essa posição de fronteira ajudou a formar uma cultura que mistura referências orientais e ocidentais de maneira singular. Hoje, o país combina cidades históricas preservadas, paisagens naturais expressivas e uma vida cultural que mantém tradições muito antigas ainda presentes no cotidiano.
Um dos países mais antigos da Europa
O território da atual Bulgária foi habitado pelos trácios, uma das civilizações mais antigas do continente europeu. Escavações arqueológicas revelam tesouros em ouro considerados mais antigos do que os encontrados no Egito Antigo, o que reforça a relevância histórica da região. Cidades como Plovdiv, considerada uma das mais antigas continuamente habitadas do mundo, preservam ruínas romanas, teatros antigos e centros históricos que atravessam diferentes períodos históricos em poucos quarteirões.
O alfabeto cirílico e a identidade búlgara
Um dos maiores legados culturais da Bulgária para o mundo eslavo é o alfabeto cirílico. Desenvolvido no século IX por discípulos de Cirilo e Metódio, o sistema de escrita foi consolidado no Primeiro Império Búlgaro e se espalhou posteriormente por grande parte do Leste Europeu. Até hoje, o alfabeto cirílico é motivo de orgulho nacional e um elemento central da identidade cultural búlgara, presente na educação, na literatura e na vida cotidiana.
O Vale das Rosas e a paisagem natural
No centro do país, o Vale das Rosas é uma das regiões mais simbólicas da Bulgária. Ali se concentra a produção de óleo de rosas, utilizado pela indústria de perfumes de luxo em todo o mundo. A tradição remonta ao século XVII e segue ativa até hoje, com colheitas sazonais que mobilizam comunidades inteiras. Além disso, a Bulgária abriga cadeias montanhosas como Rila, onde está localizado o Mosteiro de Rila, um dos principais símbolos espirituais e culturais do país. O mosteiro é Patrimônio Mundial e segue como centro religioso ativo.
Sabores do Leste: gastronomia e vinhos milenares
A gastronomia da Romênia e da Bulgária ajuda a compreender a história da região de forma sensorial. Ingredientes simples, técnicas antigas e forte vínculo com a terra moldam cozinhas que atravessaram séculos sem se desconectar do cotidiano. Comer no Leste Europeu é menos sobre sofisticação formal e mais sobre identidade, memória e tradição.
Um dos elementos mais antigos dessa herança é o vinho. Estudos arqueológicos indicam que a região dos Bálcãs abriga algumas das práticas vitivinícolas mais antigas do mundo, com registros que remontam a cerca de 6 mil anos.
Dados da OIV mostram que Romênia e Bulgária figuram entre os produtores históricos de vinho da Europa Oriental e voltaram a ganhar relevância internacional nos últimos anos, com vinícolas que resgatam castas locais e métodos tradicionais de cultivo.
Durante o século XX, a Bulgária chegou a ocupar a posição de segundo maior produtor mundial de vinho, especialmente nas décadas de 1970 e 1980, abastecendo grande parte do mercado europeu. Após um período de retração, o país vive hoje um processo de redescoberta e valorização de seus vinhos regionais.
Na mesa, pratos tradicionais revelam influências cruzadas entre o Mediterrâneo, os Bálcãs e o Leste Europeu. Na Romênia, o sarmale, charuto de repolho recheado com carne e arroz, é presença constante em refeições familiares e celebrações. Já na Bulgária, a banitsa, feita com massa folhada, queijo e ovos, aparece tanto no café da manhã quanto em datas festivas.
Outro símbolo gastronômico da região é o iogurte búlgaro, associado à longevidade da população local. A fermentação tradicional utiliza a bactéria Lactobacillus bulgaricus, estudada desde o início do século XX por pesquisadores europeus interessados na relação entre alimentação e saúde.
Guia prático para o viajante brasileiro
Planejar uma viagem pelo Leste Europeu exige atenção a alguns pontos práticos que fazem diferença no percurso. Romênia e Bulgária oferecem boa infraestrutura turística nas cidades maiores, mas ainda preservam hábitos locais que pedem um pouco mais de preparo por parte do viajante.
Moeda e câmbio
Nenhum dos dois países utiliza o euro. Na Romênia, a moeda oficial é o leu romeno, enquanto na Bulgária circula o lev búlgaro. Cartões de crédito são amplamente aceitos em capitais e cidades turísticas, mas o uso de dinheiro vivo ainda é comum em áreas rurais, mercados locais e pequenos restaurantes.
Fronteiras e documentação
Brasileiros não precisam de visto para viagens turísticas de curta duração na Romênia e na Bulgária. Ambos os países fazem parte da União Europeia, mas ainda não integram plenamente o Espaço Schengen, o que implica controle de passaporte em travessias terrestres entre países.
A travessia entre Romênia e Bulgária ocorre, em grande parte, pelo rio Danúbio, especialmente pela chamada Ponte da Amizade, que liga as cidades de Giurgiu e Ruse. O deslocamento terrestre é comum em roteiros combinados e permite observar paisagens rurais pouco exploradas.
Idioma e comunicação
O inglês é amplamente compreendido em hotéis, restaurantes e atrações turísticas nas principais cidades. Em áreas mais afastadas, o contato com o idioma pode ser limitado, o que torna a logística e o acompanhamento próximos ainda mais relevantes para uma experiência tranquila.
Por que combinar Romênia e Bulgária
Romênia e Bulgária compartilham fronteira, história e uma lógica geográfica que favorece um percurso contínuo, feito majoritariamente por via terrestre. Essa proximidade permite atravessar paisagens, cidades históricas e áreas rurais em poucos dias, mantendo o ritmo da viagem sem deslocamentos excessivos.
O contraste cultural entre os dois países amplia a experiência. A latinidade romena dialoga com a herança eslava e oriental búlgara, criando uma leitura mais complexa do Leste Europeu em um único roteiro. Ao percorrer esse trajeto com a curadoria e o acompanhamento próximos da Paralelo 30, é possível ir além dos pontos turísticos e compreender como essas identidades se cruzam no cotidiano, na gastronomia e na paisagem.
É nesse tipo de percurso, pensado como jornada e não como soma de destinos, que a Paralelo 30 estrutura suas viagens pela região, respeitando o tempo dos lugares e a experiência de quem viaja.

